Dona do iFood engaveta sonho de ser grande e foca na sobrevivência, diz CEO

Depois de passar por Google e Facebook, Patrick Hruby assumiu o cargo de executivo-chefe da Movile, dona de iFood, PlayKids e Sympla em uma situação complicada: o isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus. Isso esvaziou os eventos ao vivo, atingindo em cheio a plataforma de eventos Sympla, e comprometeu restaurantes e expôs entregadores do iFood. Hruby diz ao Tilt que o plano de longo prazo “está na gaveta, guardado”. Neste momento, as prioridades são a saúde de funcionários e colaboradores, manter a empresa de pé nesta crise e garantir a sobrevida financeira de parceiros dos apps da Movile, como artistas, entregadores e restaurantes.

O executivo conversou com Tilt antes de uma decisão da Justiça do Trabalho de São Paulo decidir que os serviços de entrega online Rappi e iFood paguem assistência financeira de ao menos um salário mínimo (R$ 1.045) aos entregadores infectados, suspeitos ou em grupos de risco do covid-19.

Antes disso, o iFood havia criado dois fundos no valor de R$ 2 milhões para custear auxílios a esse grupo. Mas o valor pode ficar abaixo do mínimo, já que é uma média dos repasses feitos pela plataforma nos últimos 30 dias. Segundo Hruby, nenhum entregador foi contemplado ainda.

Na decisão liminar, a Justiça do Trabalho ainda determinou a entrega de álcool gel com concentração de 70%. O iFood começou a distribuição por São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Porto Alegre e Curitiba e chegou nesta semana a 18 cidades. Nesta terça-feira (7), a empresa conseguiu derrubar as decisões preliminares na Justiça.

Tilt – Você assume a Movile enquanto passamos por um momento sem precedentes na história do país. Como é assumir uma empresa de tecnologia numa situação tão delicada quanto essa?

Patrick Hruby – Eu me considero um otimista. Passamos por um momento difícil, mas tenho certeza que sairemos diferentes, mudados, como empresa e sociedade. As decisões que tomamos agora vão impactar o mundo novo que estamos criando.

As decisões são muito, muito críticas não só para a Movile, mas para o nosso ecossistema como um todo. Comuniquei aos funcionários as nossas prioridades agora. Primeiro, a saúde dos funcionários, de seus familiares e dos nossos parceiros, mas também a do entregador e do consumidor que recebe comida de restaurante. Segundo: garantir a sustentabilidade dos nossos negócios. Vamos atravessar essa crise, mas precisa sobreviver como empresa para criar esse novo mundo.

Não estamos preocupados só com a nossa saúde e sustentabilidade. Queremos que a cadeia inteira sobreviva também. Quando o iFood lança o fundo de R$ 50 milhões para os restaurantes, está garantindo que eles também sobrevivam. Quando pensa na saúde do entregador, está preocupado com uma parte importante da cadeia, normalmente negligenciada.

Tilt – Dá para dizer quanto tempo vai durar o impacto da crise sobre a economia, a Movile e os negócios da empresa?


Patrick Hruby – Pelo tempo que a crise durar, vamos tomando ações e se adaptando. Honestamente, não sei quanto mais tempo isso vai levar. Vai depender da evolução da crise de saúde. Se essa curva vai achatar ou não, e qual vai ser o impacto das ações do governo, das empresas e da sociedade como um todo.

Hoje, não temos planos de longo prazo. Eu tenho um, mas ele está na gaveta, guardado. Hoje, nosso plano é de curto prazo. Estamos lidando com isso dia a dia, semana a semana.

Tilt – Muitos negócios analógicos estão sendo afetados. Vocês são uma empresa de tecnologia com muitos pés no ambiente digital. De que forma essa crise está afetando o negócio da Movile?

Patrick Hruby – Nosso ecossistema é formado por várias empresas. Elas operam de forma independente, mas temos esse guarda-chuva que as auxilia a atingir o seu potencial. Quando uma empresa está indo bem e outra com mais dificuldade, conseguimos ser um amortecedor para essas dificuldades.

O caso principal é a Sympla. Ela trabalha com apoio e ingresso para eventos que acontecem principalmente no mundo físico. É uma plataforma tecnológica, sim, mas quando os governos proíbem eventos, a fonte de receita é enxugada. Entretenimento e turismo foram os ramos mais impactados no início e provavelmente serão os ramos que mais demorarão para voltar.

Temos a Playkids, que é entretenimento infantil online e assinatura de livros. Se tem mais crianças por bastante tempo em casa e os pais preocupados com o tipo de conteúdo elas estão consumindo, Playkids é uma alternativa saudável e educativa. É o outro lado dessa moeda.

Tilt- O principal negócios da Movile é o iFood. Com tanta gente em casa, é de se esperar que serviços de delivery cresçam. Mas os entregadores reclamam que o nível de trabalho tem caído. O que acontece na prática?

Patrick Hruby – É cedo para dizer. Temos o impacto de saúde e o econômico, e muitos fatores que vão se equilibrando. Por exemplo: o iFood tem um negócio de marmita, que é popular para as pessoas no trabalho. Como elas estão em casa, imagino que esteja saindo menos marmita e elas estejam pedindo mais comida à noite.


Para ser sincero, estamos mais preocupados em garantir a sustentabilidade do ecossistema. O nosso foco está em dar liquidez para o restaurante. Estamos antecipando todo o dinheiro que o restaurante recebe no cartão de crédito para ele ter fluxo de caixa. Geralmente teria um custo muito alto, mas a gente está fazendo isso sem custo.

Tem muito dinheiro que tiramos da nossa margem. Tem tanta coisa acontecendo que eu não quero dizer, ‘nossa, está sendo bom ou ruim’. A gente está tentando fazer o nosso melhor, sentindo que o iFood tem um papel importante nesse ecossistema.

Tilt – O iFood criou um fundo de R$ 2 milhões para auxiliar entregadores que não puderem trabalhar por causa do coronavírus. Quanto desse dinheiro já foi gasto?

Patrick Hruby – Tem R$ 1 milhão para entregadores doentes e R$ 1 milhão para entregadores do grupo de risco evitarem que fiquem doentes, porque o risco para essas pessoas é muito maior. Se eu não me engano, não tínhamos nenhum colaborador que tenha sido infectado. Temos hoje entregadores nas categorias de risco, com asma ou acima de 65 anos. Essas pessoas, às vezes, são a única renda da família. A pessoa se sentiria na obrigação de seguir trabalhando. O fundo é fundamental para essa pessoa ficar em casa e receber a mesma renda de acordo com seu histórico de receita no iFood nos últimos meses.

Tilt – O iFood criou um fundo de R$ 50 milhões para ajudar restaurantes com problemas. Esse dinheiro vai ser suficiente com tanta gente atrás de fluxo de caixa neste momento?

Patrick Hruby – Estamos ajudando o fluxo de caixa de diversas formas. Os R$ 50 milhões são uma delas. As pessoas podem retirar comida no restaurante sem pagar entrega e sem o restaurante ter um custo. A gente está liberando o adiantamento de recebíveis no cartão de crédito sem custos. Vai ser o suficiente? Cada semana a gente está lançando novas medidas para se adaptar ao momento.

Fonte: UOL

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