Na pandemia, entregadores e Ubers viram soldados no front, mas sem direitos

A crise do coronavírus criou uma oportunidade —e esta não é, necessariamente, uma boa notícia. Com o desemprego em alta e um mercado de trabalho baseado na informalidade, aplicativos como Uber, iFood, Rappi e afins criaram um exército de mão de obra que cuida da demanda por produtos e serviços. Esse contexto deve crescer nas próximas semanas em razão da quarentena e do isolamento social.

Com as cidades paradas, produtos, alimentos, documentos, medicamentos e até exames de laboratório deverão circular cada vez mais na chamada “gig economy” ou “economia de bico”, na qual atividades temporárias ou “freelancer” vira o trabalho principal.

Em tempos de pandemia, esses trabalhadores poderão ser uma versão contemporânea do soldado do filme “1917”, que arrisca a vida atravessando uma área hostil para entregar uma carta a um general.

O show deve continuar?

Castro lembra que, apesar da recomendação por quarentena, o mundo não para. E esse mundo ainda é muito dependente de papel e assinatura, que referendam a veracidade das informações que circulam no meio digital.

“As pessoas estão procurando bico. (…) A gente está num mundo dependente de carimbo e da assinatura. Muita coisa não é aceita online. Precisam de termos de segurança. O motoboy nasceu para isso, para circular documento pela cidade. A tendência é que essa figura esteja ali, dando conta da circulação desse trabalho home office”, diz Castro.

As perguntas centrais dessa situação, segundo a socióloga, são quem pode parar ou não e quem estará mais exposto à pandemia.

“Não é todo trabalho que permite ficar em casa. Quem serão os trabalhadores mais atingidos nessa história toda? Vamos expor esses trabalhadores de aplicativo ao contato com outras pessoas em quarentena, porque o amigo do amigo [delas] teve coronavírus? Quais limites de segurança sanitária essas pessoas têm? Quem a gente protege?”

A tendência é que a demanda por entregas de alimentos aumente e os deslocamentos de motoristas por aplicativos, por exemplo, se concentrem em áreas com hospitais.

Quem cuida dos entregadores?

“Esses profissionais estão sendo muito mais expostos do que o restante da população. Eles assumem esse risco, porque tem conta para pagar em casa. Mais gente deve entrar na plataforma. E isso envolve várias questões éticas. Da mesma forma que o motorista deve ter seu próprio carro, é ele quem vai ter de se preocupar em comprar os equipamentos de segurança, como o álcool gel?”, argumenta Castro.

A professora afirma que as empresas podem até lançar protocolos para os profissionais sem vínculo de trabalho reconhecido na Justiça, mas se questiona como plataformas que estimulam profissionais a trabalhar cada vez mais vão se responsabilizar também pelas condições de segurança deles para evitar a transmissão do vírus.

Fonte: UOL

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *